Reconhecer…
Saber ver as coisas do jeito que são. Parece fácil? Nem sempre. Há dentro de nós uma força imensa dificultando nossa visão.
Observando como ela surge dentro de mim, mascarando atitudes, vestindo-se com os mais diferentes papéis, esforçando-se para encobrir a realidade, me pergunto por quê e para quê.
Assombra-me por vezes constatar que, apesar de minha perspicácia tão aguda em certos momentos e para determinadas coisas, eu seja capaz de ser tão ludibriado e tão fragorosamente enganado em outras, não as enxergando senão através da ótica viciada de minhas ilusões.
Se por um lado pode parecer decepcionante, por outro convida a pensar com mais calma e a ser mais humilde, pois exatamente no momento em que nos julgamos aptos, quando percebemos um pouco mais de nossa realidade interior, exatamente quando acreditamos ter amadurecido por termos conseguido compreender melhor a vida, as coisas e a nós mesmos, é que, subitamente, deparamos com aspectos novos de nossa realidade interior, inesperados e até a pouco ignorados, escondidos ferozmente pela ilusão.
Reconhecer a própria alma significa assumir seu lugar, crescer, ser consciente, passar de observador a cooperador, de cego tatear nas trevas a caminhada clara e definida no rumo certo.
Se reconhecer o que somos nos leva a tudo isso, que força é essa que nos oprime e desvia, que estabelece condições passageiras, que desfigura os fatos e os traveste de receios?
Perguntas que tenho feito…
Penso, de vez em quando, em como seria bom se eu pudesse livrar-me delas para sempre e pensando nisso, comecei a observar com atenção os pensamentos que iam pela minha cabeça.
Ver as coisas como são, significa ser falível em certos casos, é não ter habilidade para certas coisas, ou então possuir alguma tendência…
Perceber que você não é tão honesto como supunha, que no fundo ainda desejaria “ganhar” dos outros, seja lá o que for, é demais para qualquer um, afinal ser honesto é o grande mito de todos nós. Enchemos a boca para falar em honestidade e todos sabemos explicar muito bem o que seja essa qualidade, mas quem de nós admitiria não a possuir integralmente?
Pois é, a vida nos coloca em circunstâncias tais que de repente descobrimos nossa desonestidade, nosso constante iludir, criando pensamentos obstruidores, impedindo-nos de ver como somos.
Mas uma coisa eu sei, não há nada melhor que a verdade. Quanto mais verdade, mais progresso; quanto mais progresso, mais felicidade; quanto mais felicidade, mais alegria e luz.
(Silveira Sampaio)






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